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Seja um Herói,

Salve vidas!

 

Escrito por Josanie Branco

Era para ser dor. Foi uma dor. Mas uma dor transformada. Dor aceita e escancarada, modificada para levar algo de bom ao outro e, assim, confortar o outro e a si mesmo. Uma experiência de dor pode ajudar pessoas a revisitar valores, perspectivas e significados que dão à própria vida. E desta forma Claudio José dos Santos Azevedo, 33 anos, vem vencendo seus dias e trabalhando, voluntariamente, no projeto Seja um herói – Salve Vidas.

Em uma entrevista comovente à redação do “O Extra.net” (22/05/2015), Claudio fala sobre superação, amor ao próximo e seu projeto de criação de um site.

EXTRA: Quando e como você iniciou o projeto voluntário na luta por doadores de sangue medula?

Pai do menino João Pedro cria site para doação de medula óssea—  Josanie Branco, O Extra.net

CLAUDIO: Meu filho João Pedro sofria de leucemia e desde o ano de 2009, quando descobrimos a doença, ele era submetido a tratamentos intensos. Em 2012 o João teve uma recaída e os médicos disseram que ela precisava de um transplante, foi neste período que tive a ideia de fazer campanhas solicitando o auxílio de doadores. A primeira campanha aconteceu em fevereiro de 2013, em apenas uma semana realizamos 159 cadastros de medula e coletamos 273 bolsas de sangue no Hemocentro de Fernandópolis. Os números foram muito positivos e superam nossas expectativas em tão curto tempo. Ali pude perceber o quanto as pessoas são solidárias e estão dispostas a colaborar umas com as outras.

EXTRA: Como foi para você receber a notícia dos médicos de que só um transplante de medula poderia trazer a cura para o João?

CLAUDIO: Um grande choque, um momento que jamais imaginei um dia vivenciar. Foi muito difícil ouvir e tentar entender que a vida do meu filho dependia de outras pessoas, que só encontrando um doador, que é coisa rara, João poderia se curar.
Na época, eu, minha esposa Luciana e nossa filhinha Ingrid, que tinha três anos, fizemos os exames e para nossa tristeza fomos informados que não éramos compatíveis.
Com tudo aquilo acontecendo na vida do meu garoto eu sabia que tinha que fazer algo, comecei então a buscar doadores. A princípio foi uma luta pessoal, eu queria salvar o meu filho, mas depois, com o andamento das campanhas, muitas pesquisas e conhecendo a realidade de outras pessoas que também passavam pelo mesmo problema do João, minhas ações se intensificaram. Não era mais apenas uma vida a ser salva, mas sim milhares.

EXTRA: Quantas campanhas “Seja um Herói – Salve Vidas” já foram realizadas?

CLAUDIO: Foram mais de quinze campanhas na cidade e região, onde conseguimos, em média, mais de 4.500 cadastros de medula e um grande número de doadores de sangue.

EXTRA: Como você começou este trabalho de divulgação?

CLAUDIO: No início éramos eu e minha família, de boca a boca, divulgando a campanha, depois fomos buscando parcerias, recebendo incentivo, e desta forma ampliando a divulgação. Com o apoio de patrocinadores fizemos camisetas com a fotografia do João estampada, panfletos e adesivos.Todos os órgãos de imprensa também nos abriram as aportas e divulgaram nosso projeto solidário.

EXTRA: Neste período de campanhas, foi encontrado algum doador compatível com o João Pedro?

CLAUDIO: Em março de 2013 encontramos um possível doador, mas durante a fase de controle de compatibilidade a pessoa não atingiu 85%, sendo assim não foi possível realizar o transplante. Porém, embora a luta sempre tenha sido intensa e as chances de compatibilidade sejam muito raras (1 a cada 100 mil)  eu acreditava que um dia encontraríamos um doador para o João.

EXTRA: Por algum momento já passou pela sua cabeça a ideia de parar com as campanhas?

CLAUDIO: É triste ter que dizer isso, mas por vezes pensei que não daria conta, pensei em abrir mão do projeto e desistir. Mas quando vinham esses pensamentos na minha mente, logo me lembrava de que a doação de medula era a única esperança do meu filho e de muitas outras pessoas com leucemia. Se parássemos com as campanhas e trabalhos em busca de doadores, as chances de encontrar alguém compatível seriam ainda menores.

EXTRA: O que te fez continuar?

CLAUDIO: A esperança. A cada campanha uma expectativa e a renovação de forças de que aquela seria a chance de encontrar um doador para meu garotinho. Pois o tratamento amenizava as dores e sintomas, mas sempre havia recaídas e doía demais ver meu filho passar por tamanha luta. O João era um guerreiro e se tornou o símbolo da nossa campanha. Com isso, as pessoas se solidarizavam e conhecendo sua história se tornavam doadoras.

EXTRA: Em março deste ano, você e sua esposa tiveram uma filha, a pequena Isadora, que segundo constataram os exames era 100% compatível com o João Pedro. Como vocês receberam essa notícia?

CLAUDIO: Não da pra descrever, foi um momento único e especial. As palavras que tanto sonhávamos ouvir, enfim estavam sendo ditas, a única esperança de cura do meu filho estava alí, diante dos nossos olhos. Mas embora estivéssemos extasiados com a novidade, eu, minha esposa e os médicos sabíamos que o João estava passando por momentos muito delicados, com a saúde bastante fragilizada.
Quando a Isadora nasceu o João já estava internado e com problemas sérios no pulmão. Portanto, para passar pelos exames do procedimento da doação de medula, primeiro ele teria que se recuperar e estabilizar a leucemia e isso não seria tão simples, afinal seu quadro era delicado demais.

EXTRA: Poucos dias após a notícia confirmando a compatibilidade da Isadora, o João veio a falecer, não tendo tempo nem mesmo de iniciar o procedimento do transplante. O que passou pela sua cabeça? Você se revoltou?

Claudio Azevedo

CLAUDIO: A princípio meu sentimento foi de revolta e frustração, eram muitos porquês e questionamentos sem respostas. Perguntei tantas vezes a Deus o motivo das coisas acontecerem dessa forma. Afinal, quando conseguimos encontrar a doadora do João sua saúde não permitiu e meu menino não aguentou mais lutar. Em meio a frustração e com o coração em pedaços comecei a pensar nos pais e mães que, assim como eu, também lutam pela cura dos seus filhos. A dor de perder um filho é o pior sentimento que um ser humano pode ter. Esta dor eu não desejo para ninguém, então quero ajudar para que outras famílias não passem pelo que nós passamos. Sendo assim, nossas campanhas vão continuar e se intensificar.    

EXTRA: Como está prestes a lançar um site, como será este trabalho? 

CLAUDIO: Já está quase tudo pronto, será um informativo sobre a importância da doação de sangue e medula. A página conterá, ainda, testemunhos e relatos de pessoas que necessitam de doações, pessoas que já doaram e também aqueles que venceram doenças temíveis, esclarecendo ainda quem pode doar e os procedimentos da doação.
Também divulgaremos todas as campanhas a serem realizadas, assim como as que já temos agendadas em Ilha Solteira, Santa Fé do Sul, Fernandópolis e Jales.
O trabalho que estou desenvolvendo no site é voluntário, bem como as campanhas, e será mantido com apoio de patrocinadores e amigos. Todas as pessoas estão convidadas a colaborar conosco e a acessar no site, que no início de junho já estará no ar, o www.sejaumheroi.com.br.

EXTRA: O que você espera conquistar através deste site?

CLAUDIO: Espero poder conscientizar as pessoas, torná-las mais solidárias e mostrar o quanto é importante fazer o cadastro para ser um doador de medula e de sangue. São gestos simples e muito nobres que precisam ser praticados pela humanidade.
Tenho muitos sonhos, inclusive o de criar um projeto social, ajudar crianças, em especial aquelas carentes e hospitalizadas, proporcionando-lhes uma vida melhor.

EXTRA: Hoje, mais sereno e cheio de planos, como você avalia a luta pela cura do João?

CLAUDIO: Embora muitos dizem que não, na minha visão deu essa luta deu muito certo. A história do meu filho mostrou que promover campanhas de conscientização vale a pena. O João conseguiu o que mais queríamos, que era um doador, acontece que sua fragilidade e agravantes da doença o impediram de prosseguir. Deus nos mostra a cada dia que tudo deu certo sim, mas chegou o momento em que o João, após cumprir sua trajetória na terra, precisou descansar.
O que fica de mais bonito em tudo é que meu filho deixou um legado, ele foi um batalhador e sei que daqui alguns anos, a Ingrid e a Isadora terão orgulho em dizer que o irmão delas foi um anjo que passou na terra e que através dele, muitas vidas poderão ser salvas.